CONTINUAÇÃO ENTREVISTA MESTRE JOEL - PARTE 3

 

P: Qual a relação entre o bom manejo das plantas e a evolução espiritual de cada discípulo?

MJ: As plantas são a “matéria prima” do nosso processo de evolução. Se a gente não cuidar disso, vai cuidar de que então? Quanto mais a gente possa estar cuidando, zelando, tendo uma atenção devida com isso, também se reverte no nosso benefício no sentido de estar colhendo os frutos que a gente planta de uma forma bem tranqüila e equilibrada. Se a gente está plantando mariri vamos plantar com amor e dedicação.

 

MJ: O plantio é um processo em construção, de encontrar as técnicas, os insumos, os produtos  que sejam eficazes tragam um bom desenvolvimento das plantas. Por conta disso, mesmo dentro do processo orgânico, a gente vem passando por adaptações. Teve um período em que usamos a compostagem orgânica. Fazíamos as caixas com restos de produtos orgânicos, fazíamos as camadas, colocávamos junto com o adubo, depois removíamos. Depois, descobrimos o rúmen e foi um bom produto para potencializar o desenvolvimento. Descobrimos também o pó de brita, que é um silício, um mineral que a planta absorve o silício pelas raízes, o próprio biogel e o pó de rocha vulcânica. Então esses produtos tem dado resultados bem significativos, à medida que vamos aprimorando as técnicas de uso. Isso aparece na saúde das plantas, na textura das folhas, na consistência dos caules, o que demonstra que o produto é eficaz e a planta responde no desenvolvimento e na aparência.

 

Quando a planta fica doente, corrigimos o solo. A planta adoece porque o solo está com deficiência.  Assim, o combate de pragas é feito com a utilização do próprio biogel.

 

P: Já temos os Nove Vegetais plantados na área do Núcleo?

MJ: O nosso propósito desde o início foi ter essas espécies no Núcleo.  Inclusive estamos fazendo um trabalho para termos elas plantadas em volta do templo. Já temos sete espécies de vegetais, do conjunto dos Nove e estamos agora trabalhando para ver se conseguimos mais duas espécies que estão faltando. Também temos o cultivo de João Brandim, que não está entre os nove, mas que é medicinal. Duas espécies são nativas da área: o Breuzinho e o Apuí.

 

P: Em quanto tempo o Estrela deve adquirir a auto-suficiência em mariri?

MJ: Eu estimo que daqui a uns dois anos nós podemos  já estar pensando em ter um manejo bem planejado de uso para poder conseguir essa auto-suficiência.  Estamos em 2008, acho que final de 2010 nós temos toda a possibilidade de ter. Mariri para preparo nós já temos. Agora um terreno desses, numa estrutura dessas considerando o número de sócios que nós temos, quase 200, então precisa ter pelo menos 100 pés adultos em bom desenvolvimento.

(Conselheiro Virgílio cita a estimativa feito por outro Conselheiro, Renato, de Vitória, que visitou o Estrela da Manhã. Ele disse que segundo a experiência do Núcleo dele, leva de sete a oito anos para alcançar a auto-suficiência)

 

P: E o que o senhor sente ao ver o mariri crescendo e se desenvolvendo?

MJ: É uma satisfação muito grande, uma alegria muito grande quando vimos a primeira florada e todos os anos agora quando ele flora é uma festa. Esse plantio, esse modelo de plantio orgânico, resulta em sementes de uma consistência e um tamanho  impressionantes. E os pés que nascem dessa sementes têm essa mesma consistência no caule e nas folhas desde que as plantas são pequenas.

 

P: Seria algo próximo do mariri nativo?

MJ: É, também porque quando o mariri está com a semente do próprio local ele está também adaptado às condições da região. Com isso a condição imunológica da planta é bem melhor, com menos risco de pegar doença por estar organicamente adaptada à região. Isso facilita o desenvolvimento porque dispensa a aclimatação. E as flores e os frutos, as folhas nascem com uma boa consistência. Isso é bem visível: uma semente do Núcleo e a semente de outra região são bem diferentes.

 

P: Como é feita a preparação da semente?

MJ: É uma fase bem importante do plantio, porque a semente do mariri  fica dentro de uma espécie de casca, que é muito dura. Parece uma asa de borboleta. Agora onde fica a semente mesmo é um botãozinho minúsculo e muito duro, então se você plantar direto na terra ela demora muitos dias para brotar. Por isso dentro do princípio do plantio orgânico recomenda-se quebrar a dormência da semente. Aí você deixa ela na milanesa, uma mistura de pó de rocha com o biogel. Faz uma espécie de mingau e deixa uma hora de molho para amolecer a casca. Aí você coloca na terra em poucos dias brota. É impressionante. Eu fiz o comparativo das duas condições. Entre as sementes que foram plantadas na terra teve umas que não nasceram e outras que levaram mais de um mês para brotar. As que tiveram a dormência quebrada brotaram em menos de uma semana.

 

P: E como é feito o manejo, a preparação das mudas?

MJ: Eu faço  elas em sementeiras, as chamadas casas de abelhas, que são placas de isopor. Aí coloca a semente, depois de quebrar a dormência, e aí deixa brotar, quando nasce duas folhinhas, tem que tirar dali e transportar para o saco ou para a garrafa pet. E aí deixa ali durante um tempo, cerca de três meses. Porque a raiz do mariri de semente é bem pivotante. Já  a raiz do mariri de estaquia é superficial, ela não vai para o fundo do solo. Mas o da semente, a raiz dele é bem para dentro da terra. Eu com o tempo, tenho plantado mais com a semente. Primeiro porque a gente pega a semente do próprio local. E segundo porque se perde muito menos. Com estaca se perde mais, nem todos nascem.  Então depois que começou a produzir semente a  gente optou por plantar com as sementes também porque é uma coisa que facilita o trabalho para a gente. Com estaca todo o manejo tem que ser feito logo, no mesmo dia de uma vez, geralmente quando tem preparo. Com a semente não, não precisa fazer tudo de vez. Aí as condições de comodidade são melhores, além da questão de adaptação. Os institutos de controle de doenças do país inclusive não gostam que se plante mudas de uma região para outra, porque pode trazer doenças, fungos ou bactérias, se a planta estiver doente.

 

P: Com relação à poda, é melhor podar o mariri ou não?

MJ:  Eu não sou favorável à poda, primeiro porque o mariri plantado na região em que a gente vive, se você planta numa área mais aberta a tendência é galhar muito. Isso  é característica de qualquer  planta que se plante ela no sol. Já uma planta com sombra cresce na vertical. Então é uma luta contra a lei na natureza. A poda está sujeito a planta adoecer. O Mestre Zé Gomes falou uma coisa interessante: cada galho da planta que nasce tem uma raiz correspondente. Se você corta o galho, aquela parte da raiz morre. Tanto por cima, quanto por baixo pode entrar algum tipo de inseto, que vai contaminar aquele lugar aberto e trazer algum tipo de doença. Lá no terreno, o mariri que a gente plantou onde tem mais árvores cresceu na vertical. Onde tem mais sol, galhou bastante e formou quase um reinado.

 

Quanto às guias, eu orientei a pôr algumas no plantio mais recente, porque o mariri estava ramando de um modo que não estava desenvolvendo bem. Então eu pedi para pôr umas guias nas hastes principais para dar mais direcionamento, assim ele recebe mais luz e fortalece os outros galhos.

 

P: Quantos pés de chacrona temos?

MJ: Temos cerca de 150 pés, mas eu acho pouco, quero plantar mais. É uma quantidade razoável, mas tem áreas do Núcleo em que ela se adaptou melhor que em outras. Então quero expandir, até mesmo junto do mariri em alguns lugares, com mais sombra.

MJ: É preciso que o plantio se torne uma prioridade efetiva nas unidades. Se fala muito em prioridade, mas quando vai para a questão da estrutura administrativa, financeira e funcional, nem sempre o plantio dessa prioridade. De acordo com o lugar se prioriza as construções enquanto o plantio está com sérias carências.

 

CONTINUAÇÃO ENTREVISTA M JOEL - PARTE 2

 

P: Quanto foi plantado no início?

MJ: Nós temos cerca de 20% de estaca e 80 % de semente no caso do mariri. O plantio de chacrona foi feito muito em cima de sementes mesmo e se usa a mesma técnica.

 

P: O solo e as condições climáticas do Núcleo tem se mostrado propícios ao desenvolvimento das plantas?

MJ: Tem. O solo é propício e as condições climáticas a gente tem tido  alguns cuidados por causa do período longo de estiagem. No ano passado a gente teve que rezar muito para que a chuva chegasse. Mas ainda é um clima bom para o plantio, porque faz sol e chove com uma  certa regularidade e tem uma boa quantidade de água no solo. O que estamos fazendo é nos preparando com irrigação, já pensando em períodos de estiagem mais fortes, em função das mudanças climáticas do planeta. Já fizemos uma lagoa pensando nisso, na busca de um reservatório de água.. Mas no geral as condições são favoráveis.

 

P: Como começou o plantio, qual o tamanho?

MJ:   No início plantamos em uma área do terreno. A idéia foi plantar por amostragem, pegando todo o raio do terreno para ver onde se desenvolvia melhor. Aí a gente foi plantando, ao longo do raio que fazia os limites do terreno. Em março de 2003 a gente investiu mais na área onde fica a casa do preparo e a fornalha. Como nesse local o desenvolvimento foi mais  rápido , passamos a investir mais nele, seqüenciando e aumentando o número de pés plantados ali. Começamos também a irrigar, porque é uma área que fica perto do poço e dos tanques. Plantamos ali 1200 pés de mariri. Depois a gente plantou mais uns 400 pés, já naquela área onde faz divisa com outro terreno. E recentemente plantamos mais uns 350. Eu estimo que a gente deve ter mais de 2 mil pés plantados e ainda há espaço para mais (final de outubro de 2008).

 

 

P: Qual o limite entre a quantidade de pés em relação à capacidade de cuidar?

MJ:  A minha meta  no início era plantar mesmo em torno de 2 mil pés, porque quando plantamos uma quantidade maior naquela chamada área 1, que fica atrás da casa do preparo, a gente viu que a quantidade de terra que sobrou ainda dava para plantar uma boa quantidade. Então a gente estimou em torno disso. E eu sempre tive esse  preocupação: desde que a gente foi para o Estrela da Manhã eu bati sempre essa tecla de que  deveríamos plantar o que pudéssemos cuidar. Numa experiência de plantio anterior eu tinha um trabalho enorme de preparação de mudas, e quando chegava o período da estiagem a gente  perdia praticamente todo o trabalho porque não tínhamos cuidados de manutenção, como a irrigação. Então quando eu fui para o Estrela da Manhã uma das coisas que eu procurei mesmo ter um propósito definido foi nesse sentido, porque a preparação dá trabalho, ainda que seja prazeroso. Agora precisamos planejar como vai ser feita a colheita do mariri, com um censo, até para ver se há espaço para plantar mais ou se pára por aí.

ENTREVISTA COM MESTRE JOEL MIGUEZ SOBRE A HISTÓRIA DO PLANTIO NO NÚCLEO ESTRELA DA MANHÃ –

NOVEMBRO DE 2008

 

P: Quando o terreno do Núcleo foi escolhido levou-se em conta a adequação ao plantio de mariri?

MJ: A idéia era que fosse uma área que tivesse a disponibilidade de se ter um plantio consistente dentro do próprio terreno. Dimensão, existência de água, de árvores, solo bom. A informação que a gente tinha é de que era uma área de terra muito boa, com lençol freático de qualidade. E esses fatores foram levados em consideração na hora da escolha do terreno. O tamanho também levou muito em conta, para que permitisse todas as plantações e o plantio. Temos terra preta o que pro vegetal é bom, com muito material orgânico.

 

P: E porque o plantio de mariri e chacrona deve ser uma prioridade para o núcleo?

MJ: Por várias razões, um dos motivos principais é a disponibilidade de mariri e chacrona, até porque facilita os custos, hoje em dia as mensagens estão muito caras. O crescimento da UDV nos centros urbanos é muito rápido e a disponibilidade de mariri nativo no Brasil hoje é muito escassa. Em algumas regiões mesmo já nem tem mais. Em Porto Velho, por exemplo, tem que ir buscar mariri nativo a 500 quilômetros de estrada de chão. Assim a mensagem acaba tendo custo alto e isso onera para a irmandade das regiões. Também para o futuro. O que estamos plantando hoje tem uma geração que ainda vai chegar daqui a alguns anos. E pela própria subsistência nossa em termos de mariri e chacrona.

 

P: E porque a opção pelo plantio orgânico?

MJ: Essa experiência já veio lá do Serenita. Quando nós começamos o Pré-Núcleo Estrela da Manhã optamos pelo modelo orgânico que já vinha dando bons resultados. Por que antes havia sérios problemas com o plantio e a partir de uma experiência que eu vi lá em Caruaru com o plantio orgânico. Aí nós trouxemos o  seu Adoniel, um professor de agricultura orgânica, que deu alguns cursos para a irmandade dos núcleos da região e depois para a comunidade externa também. E aí passamos a ter rigor nesse modelo de plantio quando fomos para o Estrela da Manhã, porque o resultado prático dele é muito bom.

 

P: E ele é mais dispendioso em termos de custos do que o plantio convencional?

MJ: Eu acho até que é mais em conta, mais barato. Se aproveita muita coisa, hoje em dia a gente tem o rúmen, por um custo mais barato. Os defensivos agrícolas químicos são caros e além disso afetam a saúde, por isso a gente não usa de jeito nenhum. E para  a saúde da planta o plantio orgânico também é muito bom.

 

P: E no manejo, qual a diferença no caso do mariri e da chacrona, do plantio orgânico para o convencional?

MJ: No orgânico, na hora de cavar o berço onde se vai plantar, retiramos as camadas de acordo com o tipo do solo. Aí tem o horizonte A, horizonte B e horizonte C, conforme a camada da terra. Mais na superfície é o horizonte A; o que fica mais no meio, já muda a coloração,é o horizonte B. E o que fica mais embaixo, é uma terra mais vermelha, mais ácida, chamamos de horizonte C. Reconhece pela cor. Aí cava, separa cada quantidade de terra e prepara aquele berço, colocando adubo orgânico, o rúmen de gado, coloca cobertura morta, (folhas secas)e aí se coloca as camadas de terra na mesma condição em que elas estavam. Aí depois se molha com biogel e deixa ali durante um mês, mais ou menos. Com o passar do tempo o adubo entra em decomposição e nasce uma espécie de matinho em volta. Quando aparecer o matinho já está na hora de plantar a muda. Isso leva em torno de 40 dias para acontecer. Aí abre-se um pouco o berço, coloca-se o pé da planta e se reveste em volta com cobertura morta.

 

Nove meses

Minha filha vem chegando. São nove meses de espera. Até parece mais, graças à nossa capacidade de perceber o tempo subjetivamente. São mais ou menos 270 dias para pensar no milagre da vida e sentir o acomodar suave das gotas de sereno que caem sobre o terreno acidentado do existir.

Incursão

Andei por oito estados do Brasil nos últimos três meses. Agora essa jornada chega ao fim. Nunca imaginei que conheceria lugares como Parnaíba, no litoral do Piauí; Quixeramobim, no sertão do Ceará. Em Brasiléia, na fronteira com a Bolívia, bebi hoasca numa noite inesquecível. Estive também na Amazônia peruana. Cheguei perto de Macchu Picchu, mas não pude ir. O tempo era curto. Em Cuiabá, no Mato Grosso, estava no olho do furacão. Confirmei a suspeita de que Teresina é um forno a céu aberto.  E eu que nem esperava trabalhar nessa campanha política, quanto mais para Presidente da República, ganhei experiência e milhagem. Foi também uma incursão nos bastidores da política, o campo minado das boas intenções.

Argentina
Escrevo de Buenos Aires, onde aproveito merecidas ferias. Na segunda feira, daqui a tres dias, vou a peninsula Valdes, na Patagonia. Sentir se estrangeiro eh bom, dah uma sensaccao de liberdade. Viajo sozinho e estou encantado com esta cidade enorme e organizada, pelo menos na parte mais sofisticada dela, onde estou hospedado, na casa de Vivian, minha grande amiga de muitos anos. Tambem revi por aqui minha prima Genara, que veio fazer residencia em um hospital psiquiatrico. Tenho refletido sobre a importancia dos amigos. Hoje os comparo, e sao muitos, com as flores do jardim.
Vislumbres da Índia

Octavio Paz nasceu em 1914. Foi embaixador do México em vários países. Ganhou o Nobel da Literatura em 1990 e em 1998 partiu. Caiu em minhas mãos o livro "Vislumbres da Índia" . Renata comprou, leu, gostou e me passou. Foi escrito nos anos 90 sobre as impressões de Paz acerca do continente indiano,onde, segundo ele florescem duas civilizações: a hindu e a islâmica. Com a habilidade de dizer muito de uma maneira sintética e simples, ele passeia pela política, religião, gastronomia e artes da Índia para que o leitor entenda como se trata de um continente à parte, fragmentado e baseado na fé no além-mundo. Em certo momento ele compara o hinduísmo a uma grande jibóia metafísica que vai engloindo (assimilando) práticas e crenças religiosas heterodoxas pelo caminho. Exercitando um olhar latino-americano ele traça paralelos entre as colonizações da América Latina e a maneira como a Índia aderiu a um  projeto de nação e modernidade a partir da colonização inglesa.  Para completar o pacote, hoje fiz uma aula forte de ashtanga yoga. Acho que amanhã vou lembrar o tempo inteiro dessa aula.

Sujeira e campanhas

Escrevi isso em outubro de 2004, durante a última campanha para prefeito de Salvador. Hoje, leio de novo, e acho que tive uma premonição:

"Campanha política me irrita sobremaneira. Em todas as fotos dos cartazes, os candidatos a mandatos públicos têm semblantes de justos e serenos. Todos são amigáveis e acessíveis às vistas da massa, e estampam sinceros sorrisos retocados pelo Photoshop. É o inferno das boas intenções. Aqui em Salvador, onde grassa uma certa tendência irresistível ao voto equivocado (para não dizer de cabresto urbano), determinado candidato a prefeito já prometeu legalizar todas as habitações irregulares desta cidade onde vagam 2 milhões e 600 mil almas. Quem conhece a capital da Bahia sabe que acenar com tal possibilidade é o mesmo que vender a propriedade da Lua. Outro candidato contratou 96 pessoas para fazer os programas de rádio e televisão. Sob um certo aspecto, é dinheiro e emprego para técnicos, operadores de equipamento, publicitários e "jornalistas" . Mas serve também como indicativo do tamanho da concentração de renda neste país. Dinheiro, neste caso, aplicado pura e simplesmente em persuasão do eleitoral, porque a campanha nos moldes em que se apresenta nada mais é do que propaganda deslavada, no sentido mais maquiavélico da palavra propaganda. Outro pretendente ao cargo de prefeito foi desmascarado ao produzir uma fila de madrugada em frente a um posto de saúde. Descobriu-se depois que até um boneco foi usado como se fosse o bebê de uma suposta paciente a penar na espera por uma consulta. Só nutro uma certa simpatia pelos candidatos à Câmara de Vereadores, visivelmente ignorantes e manipulados,que vão às câmeras e não conseguem esconder o nervosismo ao ler o teleprompter. Não merecem o voto, claro, mas pelo menos expõem a nudez da ignorância e não o véu da hipocrisia dos letrados. Para mim a campanha ideal teria cada candidato frente-a-frente a uma câmera ou a um microfone de rádio e nada mais. Seria muito enfadonho, mas honesto e transparente. Sem doleiros, banqueiros e narcotraficantes a utilizar o arcabouço democrático da sociedade para lavar dinheiro em campanhas milionárias que procuram vender aspirações de uma vida melhor como se fosse sabão em pó".

Sandálias da humildade


Tenho refletido sobre a importância da humildade. Não é fácil reconhecer que somos falíveis, contraditórios e inconstantes. Mas se essa constatação gera frustração, por outro lado traz alívio, quando levamos em conta de que nem sempre estamos aptos a corresponder com tudo o que nos cobram  e fazer frente às nossas próprias expectativas. Sabemos muito pouco da vida e o que sabemos não permite que julguemos. Afinal, vistos de longe, do alto, não passamos de fagulhas de vida no universo. Penso nisso a cada vez que viajo de avião e imagino como seria ouvir o silêncio abafado pelo ruído da turbina. Por um bom tempo pensei que a sofisticação intelectual e as palavras complicadas eram sinais de evolução. Hoje cada  vez mais concordo com Shakespeare: “a vida é cheia de som e fúria”. Barulheira capaz de abafar o som da essência, as batidas do coração. Aí a complicação é inevitável. Ontem conheci um casal que acolheu em casa um bebê de 20 dias deixado em uma caixa de sapatos em frente a um supermercado. Pretendem adotar a criança. A mãe adotiva, uma médica bem sucedida, nunca tinha tido filhos. Revelou que está percebendo o quanto o cuidado, o toque, a preocupação com um ser tão frágil é essencial.

-Ele faz mais bem a nós do que nós estamos fazendo a ela – exagera ela, sem se dar conta talvez que só sabe o tamanho do bem quem o recebe. São lições simples, como flores no caminho de quem tenta caminhar até o palácio da humildade.

-Melhor que mereço, dizia meu pai quando perguntavam como ele estava. Hoje compreendo a força dessa resposta.

Estou ouvindo “Chamamé para mi viejo”, de Luis Salinas. A foto foi mandada por Alice Ramos, minha mais nova amiga e fotógrafa de olho à flor da pele. Esta não foi feita por ela, mas bem poderia ter sido.

De um mestre chamado Samael

 



“A ira aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam.
Obviamente, a ira é uma emoção negativa.
O enfrentamento de duas emoções negativas de ira não consegue paz nem compreensão criadora.

Inquestionavelmente, sempre que projetamos a ira a outro ser humano, produz-se a derrubada de nossa própria imagem e isto nunca é conveniente no mundo das inter-relações.
Os diversos processos da ira conduzem o ser humano para horríveis fracassos sociais, econômicos e psicológicos.
É claro que a saúde também é afetada pela ira.
Existem certos néscios que se aproveitam da ira, já que esta lhes dá um certo ar de superioridade. Nestes casos a ira combina-se com o orgulho.
A ira também costuma se combinar com a presunção e até com a auto-suficiência. A bondade é uma força muito mais esmagadora que a ira.

Uma discussão colérica é tão somente uma excitação carente de convicção.
Ao enfrentarmos a ira, devemos resolver-nos, devemos decidir-nos, pelo tipo de emoção que mais nos convém.
A bondade e a compreensão resultam melhores que a ira. Bondade e compreensão são emoções permanentes, posto que podem vencer a ira.
Quem se deixa controlar pela ira destrói sua própria imagem. O homem que tem um completo autocontrole, sempre estará no cimo.

A frustração, o medo, a dúvida e a culpa originam os processos da ira.
Frustração, medo, duvida e culpabilidade produz a ira. Quem se libertar destas quatro emoções negativas dominará o mundo.
Aceitar paixões negativas é algo que vai contra o auto-respeito.
A ira pertence aos loucos. Não serve porque leva à violência. O fim da ira é levar-nos à violência e esta produz mais violência.”

Guimarães



"Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. (...) Deus existe mesmo quando não há. (...) Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo."


Riobaldo Tatarana, em Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa

Ouvindo "Tons", com Adriana Calcanhoto, do CD Senhas.
Rever e enxergar

Experiência interessante para mim tem sido assisitir de novo a filmes vistos há muito tempo. "Muito Além do Jardim" é de 1979 e eu já assistido a ele quando adolescente, numa dessas sessões corujas da TV. Peter Sellers, magnífico ator inglês interpreta um jardineiro que passa a vida enclausurado em uma casa, sem identidade, sem vida social. A única janela para o mundo é a televisão. Quando morre o dono da casa em que ele vive, Chance (esse é o nome do jardineiro) é obrigado a se lançar num mundo urbano que jamais tinha visto. Acaba sendo atropelado, e é socorrido pela mulher que o atropela, interpretada por Shirley MacLaine, que o leva para casa, uma mansão onde vive com o marido, um multimilionário doente em estado terminal. Chance conquista a família com uma simplicidade comovente de quem não sabe ler e escrever e entende tão somente de plantas e seus ciclos de vida. Acaba se tornando conselheiro do presidente da república e celebridade nacional. Vou encerrando a descrição do filme por aqui, pois espero que os leitores possam vê-lo para que tirem suas proprias conclusões. O fato é que quando vi o filme pela primeira vez, entendi e interpretei de uma maneira. Hoje, passados muitos anos e experiências variadas compreendi o filme numa dimensão muito maior, espiritual, que é o verdadeiro propósito do filme. Outro exemplo: revi por acaso esses dias na canadense TV5 o filme "Dona Flor e seus dois maridos", baseado na obra de Jorge Amado, com José Wilker e Sônia Braga. A história se passa em Salvador, em lugares que sequer eu sonhava conhecer quando o vi pela primeira vez. Hoje já passei por todas as locações do filme e isso deu um significado todo especial, além de eu poder compreender agora a alegoria barroca que Jorge Amado faz da relação ambígua de Flor com um Vadinho sem pudor e com o farmacêutico puritano que se torna seu segundo marido depois da morte de Vadinho. Flor, como todo mundo já sabe, não consegue escolher entre um e outro. Divide a cama com a alma mundana de Vadinho, que se recusa a deixar a esposa com quem tinha uma relação tórrida e com o corpo presente do marido com quem mantém um casamento enquadrado nos padrões de uma sociedade católica conservadora. Assim acomoda o sagrado matrimônio abençoado pela Igreja Católica com o a necessidade de saciar o desejo representada por Vadinho. Numa obra aparentemente simples, Jorge Amado, que seria meu vizinho se ainda vivesse entre nós na casa do Rio Vermelho, consegue tratar de um aspecto universal da condição humana. Escrevo tudo isso para lembrar que é preciso exercitar a paciência quando não conseguimos ter algumas respostas para nossas inquietações. Se não entendemos, é porque ainda não alcançamos o grau de compreensão necessário. Com o tempo, o próprio movimento da vida torna as coisas mais claras, para quem tem olhos para ver (e enxergar além de ver). 
Tambores da alma



Perguntei a meu amigo espanhol Gorka, radicado em Salvador, como tinha sido o choque de trocar Madri pela Bahia:
-Foi um “estupro energético”, respondeu ele.
Gorka se referia ao fato de ter sentido aqui uma energia poderosa, uma força meio que dispersa no ar, sem controle e difícil de descrever.
De fato, é preciso ser muito insensível para chegar a esta terra sem perceber que existe uma força diferente a circular. É o que a religiosidade africana chama de axé, a energia primordial. No ano passado, minha amiga Luiza, cearense radicada em Lisboa, me convidou a participar de um ritual chamado Águas de Oxalá, no Ilê Axé Opô Afonjá, dirigido pela ialorixá Mãe Stella de Oxossi, sumidade do candomblé e das primeiras vozes a condenar o sincretismo que identifica divindades africanas com santos católicos, herança de um tempo em que era tabu cultuar os orixás (para algumas camadas sociais ainda hoje é tabu). Para Mãe Stella essa história de que Iansã e Santa Bárbara são a mesma coisa é hipocrisia imposta pelos colonizadores que ficou latente, como uma pedra no sapato.
O ritual começou às nove da noite, quando recebi na cabeça um obi, uma noz-de-cola, o fruto sagrado do candomblé, amarrado com um torso branco pela iakekerê, uma espécie de segunda mãe do terreiro. Fui dormir. Às três da manhã, fui acordado para ir ao terreiro. No escuro, os alabês tocam tambores e os filhos de santo circulam fazendo circular também o axé. Depois, começa uma procissão. Em vasos de barro, as quartinhas, ajudei a levar água da fonte de Oxum, para uma tenda de folhas erguida em honra a Oxalá. Uma fila silenciosa de homens e mulheres de branco na madrugada. Aos primeiros raios de sol os tambores voltam a tocar, e os iniciados recebem Oxalá, o orixá da paz, em transes de incorporação. A manhã de setembro é o pano de fundo desta parte tocante (e arrepiante)da cerimônia. Não sou iniciado no candomblé. Não perguntei nada e ninguém me explicou nada. O valor e o benefício dessa experiência ficaram guardados em uma gaveta do ser que a razão não tem chave para abrir. Na foto de Pierre Verger, Mãe Senhora, matriarca do Opô Afonjá, da linhagem que gerou Mãe Stella
Mais do mesmo

Eu bem tenho tentado, mas não consigo voltar por muito tempo minha atenção para esta enxurrada de denúncias de corrupção que vem de Brasília. E acredito que esse misto de repulsa e desinteresse atinge muito mais gente do que se imagina. A sensação é de que todas as fichas foram apostadas e a banca ficou com todo o dinheiro mesmo e essas são as regras do jogo. Aliás, “ficar com todo o dinheiro mesmo” é uma atitude típica das cleptocracias africanas e sul-americanas que no Brasil ganhou as cores da legalidade. É o peso da pata do Leão fiscal, com seus dedos leves vasculhando nossos bolsos em busca de alimento para saciar a fome tecnocrata da incompetência administrativa. Lula foi eleito por ser símbolo de um projeto político de transformação, mas não tem sido timoneiro firme o suficiente para evitar que o barco siga à deriva, carregado pelos ventos do pragmatismo. Afinal, seguir na correnteza da lógica capitalista e comprar deputados é a solução mais cômoda, principalmente quando o porão do navio está abarrotado de dinheiro e vaidade que cega. João Paulo II, em seus últimos escritos alertava para o equívoco de se tomar a moderna democracia liberal como ápice da liberdade política. Sorrateiramente oculta por trás desse mito estaria a ditadura das grandes corporações, o despotismo concentrador do capitalismo financeiro. Assim como a dignidade dos políticos, as palavras também podem cair na lama e sujas e desgastadas, perderem o sentido. Jorge Luís Borges disse que  “a democracia é um abuso da estatística”. Certa feita entrevistei Aleida Guevara, filha de Che. Perguntei a ela como Fidel Castro, já no ocaso da vida, seria substituído no poder. Ela respondeu que o novo presidente seria eleito e que o mundo não conseguia entender que Cuba é uma democracia...ao modo cubano! E  assim seguimos aos tropeços, acreditando que a evolução coletiva dispensa as transformações individuais.

Aldeia global


Fazia tempo que eu queria saber o paradeiro de um grande amigo da adolescência. Junto com ele empreendi algumas buscas espirituais que me conduziram ao caminho que sigo hoje.  Já havia tentado pelo Google, o oráculo da Internet, digitando o nome deste meu amigo, "alexandre zaffari" e nunca obtendo resultado. Resolvi tentar de novo. Desta vez, não só descobri onde ele está como pude ver uma foto recente. O detalhe é que conheço também o autor da matéria, que acaba de deixar a BBC para ser repórter do SBT em Londres. O mundo é mesmo pequeno.

 

 

 

 

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