De volta ao blog, dois anos depois. No último post publicado, o assunto era a chegada de Laís. No próximo mês ela já faz dois anos. Já fala tudo e se prepara para ir a escola. E agora existe também o Miguel, com sete meses, que começa a engatinhar. A família cresceu, a responsabilidade aumentou. Acompanhar cada dia do desenvolvimento deles preenche qualquer espaço vazio. E venho descobrindo que educar é se educar.
Nove meses
Minha filha vem chegando. São nove meses de espera. Até parece mais, graças à nossa capacidade de perceber o tempo subjetivamente. São mais ou menos 270 dias para pensar no milagre da vida e sentir o acomodar suave das gotas de sereno que caem sobre o terreno acidentado do existir.
Andei por oito estados do Brasil nos últimos três meses. Agora essa jornada chega ao fim. Nunca imaginei que conheceria lugares como Parnaíba, no litoral do Piauí; Quixeramobim, no sertão do Ceará. Em Brasiléia, na fronteira com a Bolívia, bebi hoasca numa noite inesquecível. Estive também na Amazônia peruana. Cheguei perto de Macchu Picchu, mas não pude ir. O tempo era curto. Em Cuiabá, no Mato Grosso, estava no olho do furacão. Confirmei a suspeita de que Teresina é um forno a céu aberto. E eu que nem esperava trabalhar nessa campanha política, quanto mais para Presidente da República, ganhei experiência e milhagem. Foi também uma incursão nos bastidores da política, o campo minado das boas intenções.

Octavio Paz nasceu em 1914. Foi embaixador do México em vários países. Ganhou o Nobel da Literatura em 1990 e em 1998 partiu. Caiu em minhas mãos o livro "Vislumbres da Índia" . Renata comprou, leu, gostou e me passou. Foi escrito nos anos 90 sobre as impressões de Paz acerca do continente indiano,onde, segundo ele florescem duas civilizações: a hindu e a islâmica. Com a habilidade de dizer muito de uma maneira sintética e simples, ele passeia pela política, religião, gastronomia e artes da Índia para que o leitor entenda como se trata de um continente à parte, fragmentado e baseado na fé no além-mundo. Em certo momento ele compara o hinduísmo a uma grande jibóia metafísica que vai engloindo (assimilando) práticas e crenças religiosas heterodoxas pelo caminho. Exercitando um olhar latino-americano ele traça paralelos entre as colonizações da América Latina e a maneira como a Índia aderiu a um projeto de nação e modernidade a partir da colonização inglesa. Para completar o pacote, hoje fiz uma aula forte de ashtanga yoga. Acho que amanhã vou lembrar o tempo inteiro dessa aula.
Escrevi isso em outubro de 2004, durante a última campanha para prefeito de Salvador. Hoje, leio de novo, e acho que tive uma premonição:
"Campanha política me irrita sobremaneira. Em todas as fotos dos cartazes, os candidatos a mandatos públicos têm semblantes de justos e serenos. Todos são amigáveis e acessíveis às vistas da massa, e estampam sinceros sorrisos retocados pelo Photoshop. É o inferno das boas intenções. Aqui em Salvador, onde grassa uma certa tendência irresistível ao voto equivocado (para não dizer de cabresto urbano), determinado candidato a prefeito já prometeu legalizar todas as habitações irregulares desta cidade onde vagam 2 milhões e 600 mil almas. Quem conhece a capital da Bahia sabe que acenar com tal possibilidade é o mesmo que vender a propriedade da Lua. Outro candidato contratou 96 pessoas para fazer os programas de rádio e televisão. Sob um certo aspecto, é dinheiro e emprego para técnicos, operadores de equipamento, publicitários e "jornalistas" . Mas serve também como indicativo do tamanho da concentração de renda neste país. Dinheiro, neste caso, aplicado pura e simplesmente em persuasão do eleitoral, porque a campanha nos moldes em que se apresenta nada mais é do que propaganda deslavada, no sentido mais maquiavélico da palavra propaganda. Outro pretendente ao cargo de prefeito foi desmascarado ao produzir uma fila de madrugada em frente a um posto de saúde. Descobriu-se depois que até um boneco foi usado como se fosse o bebê de uma suposta paciente a penar na espera por uma consulta. Só nutro uma certa simpatia pelos candidatos à Câmara de Vereadores, visivelmente ignorantes e manipulados,que vão às câmeras e não conseguem esconder o nervosismo ao ler o teleprompter. Não merecem o voto, claro, mas pelo menos expõem a nudez da ignorância e não o véu da hipocrisia dos letrados. Para mim a campanha ideal teria cada candidato frente-a-frente a uma câmera ou a um microfone de rádio e nada mais. Seria muito enfadonho, mas honesto e transparente. Sem doleiros, banqueiros e narcotraficantes a utilizar o arcabouço democrático da sociedade para lavar dinheiro em campanhas milionárias que procuram vender aspirações de uma vida melhor como se fosse sabão em pó".

“A ira aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam.
Obviamente, a ira é uma emoção negativa.
O enfrentamento de duas emoções negativas de ira não consegue paz nem compreensão criadora.
Inquestionavelmente, sempre que projetamos a ira a outro ser humano, produz-se a derrubada de nossa própria imagem e isto nunca é conveniente no mundo das inter-relações.
Os diversos processos da ira conduzem o ser humano para horríveis fracassos sociais, econômicos e psicológicos.
É claro que a saúde também é afetada pela ira.
Existem certos néscios que se aproveitam da ira, já que esta lhes dá um certo ar de superioridade. Nestes casos a ira combina-se com o orgulho.
A ira também costuma se combinar com a presunção e até com a auto-suficiência. A bondade é uma força muito mais esmagadora que a ira.
Uma discussão colérica é tão somente uma excitação carente de convicção.
Ao enfrentarmos a ira, devemos resolver-nos, devemos decidir-nos, pelo tipo de emoção que mais nos convém.
A bondade e a compreensão resultam melhores que a ira. Bondade e compreensão são emoções permanentes, posto que podem vencer a ira.
Quem se deixa controlar pela ira destrói sua própria imagem. O homem que tem um completo autocontrole, sempre estará no cimo.
A frustração, o medo, a dúvida e a culpa originam os processos da ira.
Frustração, medo, duvida e culpabilidade produz a ira. Quem se libertar destas quatro emoções negativas dominará o mundo.
Aceitar paixões negativas é algo que vai contra o auto-respeito.
A ira pertence aos loucos. Não serve porque leva à violência. O fim da ira é levar-nos à violência e esta produz mais violência.”


Eu bem tenho tentado, mas não consigo voltar por muito tempo minha atenção para esta enxurrada de denúncias de corrupção que vem de Brasília. E acredito que esse misto de repulsa e desinteresse atinge muito mais gente do que se imagina. A sensação é de que todas as fichas foram apostadas e a banca ficou com todo o dinheiro mesmo e essas são as regras do jogo. Aliás, “ficar com todo o dinheiro mesmo” é uma atitude típica das cleptocracias africanas e sul-americanas que no Brasil ganhou as cores da legalidade. É o peso da pata do Leão fiscal, com seus dedos leves vasculhando nossos bolsos em busca de alimento para saciar a fome tecnocrata da incompetência administrativa. Lula foi eleito por ser símbolo de um projeto político de transformação, mas não tem sido timoneiro firme o suficiente para evitar que o barco siga à deriva, carregado pelos ventos do pragmatismo. Afinal, seguir na correnteza da lógica capitalista e comprar deputados é a solução mais cômoda, principalmente quando o porão do navio está abarrotado de dinheiro e vaidade que cega. João Paulo II, em seus últimos escritos alertava para o equívoco de se tomar a moderna democracia liberal como ápice da liberdade política. Sorrateiramente oculta por trás desse mito estaria a ditadura das grandes corporações, o despotismo concentrador do capitalismo financeiro. Assim como a dignidade dos políticos, as palavras também podem cair na lama e sujas e desgastadas, perderem o sentido. Jorge Luís Borges disse que “a democracia é um abuso da estatística”. Certa feita entrevistei Aleida Guevara, filha de Che. Perguntei a ela como Fidel Castro, já no ocaso da vida, seria substituído no poder. Ela respondeu que o novo presidente seria eleito e que o mundo não conseguia entender que Cuba é uma democracia...ao modo cubano! E assim seguimos aos tropeços, acreditando que a evolução coletiva dispensa as transformações individuais.
Fazia tempo que eu queria saber o paradeiro de um grande amigo da adolescência. Junto com ele empreendi algumas buscas espirituais que me conduziram ao caminho que sigo hoje. Já havia tentado pelo Google, o oráculo da Internet, digitando o nome deste meu amigo, "alexandre zaffari" e nunca obtendo resultado. Resolvi tentar de novo. Desta vez, não só descobri onde ele está como pude ver uma foto recente. O detalhe é que conheço também o autor da matéria, que acaba de deixar a BBC para ser repórter do SBT em Londres. O mundo é mesmo pequeno.
Os portoalegrenses costumam dizer que o pôr-do-sol mais bonito de mundo acontece quando a bola de fogo se esconde no horizonte e deixa um rastro dourado na águas do Guaíba. Uma amiga baiana me contou que em visita a Porto Alegre foi levada ao Gasômetro para presenciar o espetáculo. Achou bonito, mas nada espetacular, confessou, afinal vinha de Salvador onde o cair da tarde sobre o mar é sublime. Cá com meus botões penso que concursos de pôr-do-sol são como tentar escolher o filho preferido. Ontem mesmo, num quente domingo de inverno em Salvador, eu e Renata presenciamos um pôr-do-sol inefável, atrás do Farol da Barra. Tinha até platéia, como num anfiteatro da Natureza. Outro dia nos deparamos com um arco íris perfeito sobre o mar de Jaguaribe, prenunciando uma tempestade que deixou metade do céu lilás e metade azul, onde as nuvens não tinham chegado. Uma visão que durou pouco pois o aguaceiro não demorou a cair. O mundo é fabuloso e melhor visto com as lentes da mente quieta. Acima, um crepúsculo catalão, num momento em que o sol deu lugar á noite sobre Barcelona. O pôr do sol mais bonito do mundo é o do mundo.
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